Mulheres que Desenvolvem o Cenário de Esports no Brasil

Mulheres que Desenvolvem o Cenário de Esports no Brasil

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Vivendo em um país abalado por notícias recentes que expuseram o sexismo que ainda está presente não só no esports mas em toda a sociedade, as mulheres brasileiras superam os desafios de desenvolver o cenário competitivo e se tornam modelos que inspiram milhares de fãs de esports. O Esports Observer conversou com sete dessas mulheres, cada uma ocupando uma profissão diferente na cena, para aprender suas histórias, ouvir suas lições e destacar seus papéis na indústria.

Apesar de ter apenas 23 anos, Nicolle “Cherrygumms” Merhy é um símbolo de empoderamento e empreendedorismo. Ela é coproprietária e CEO da Black Dragons, uma das organizações de esports mais tradicionais do Brasil, e também atua como consultora em esports para algumas das maiores empresas e marcas não endêmicas no país. No início de sua carreira, Merhy foi uma jogadora do Rainbow Six: Siege e cresceu no cenário dos esportes eletrônicos, fundando sua própria organização e garantindo um lugar na lista Under 30 da Forbes em 2019.

Merhy tem uma paixão natural por jogos competitivos, o que tornou seu crescimento exponencial nos esportes eletrônicos um feito quase orgânico. Ela começou na cena amadora de Quake, na qual conheceu seus atuais associados na Black Dragons, e começou a trabalhar para desenvolver a cena, ajudando a levantar estruturas para outros jogadores que queriam estar em um ambiente competitivo. Hoje, Merhy também é embaixadora da Ubisoft, Corsair, Acer e Fusion no Brasil.

“O principal é que o que vai, volta. Seja sempre o mais profissional que puder, pois, por mais que sinta emoções, você também lida com as emoções do público. Dê o seu melhor e você estará fazendo isso por você e pelos outros,” ela diz.

A Black Dragons é também a atual casa da Lara ‘goddess’ Baceiredo, de 26 anos, jogadora profissional de Counter-Strike: Global Offensive (CS:GO), que também desde criança amava videogames e era presença frequente nas populares LAN Houses brasileiras da década de 2000, berço do cenário competitivo do país. Ela não tinha equipamento adequado para jogar CS:GO até 2017 e não esperava se tornar uma jogadora profissional até seu quarto ano de faculdade, quando, devido ao seu desempenho em torneios da Gamers Club (uma plataforma pertencente ao Immortals Gaming Club), ela recebeu convite para jogar profissionalmente no Santos e-Sports.

Depois disso, Baceiredo trancou a faculdade e desde então mergulhou na vida de jogadora profissional, tendo jogado por um ano no Santos, depois na Vivo Keyd, FURIA e Black Dragons. Ela se vê continuando sua carreira como jogadora profissional por pelo menos mais um ano e meio e jogando o máximo que puder, e então ter alguma experiência morando no exterior antes de continuar trabalhando na indústria de games. “Concentre-se em você mesmo e tome decisões que o beneficiem”, ela diz.

Marina Leite, CEO da Vorax, é originalmente advogada e foi escolhida pelo fundador da organização ProGaming, uma loja de informática brasileira, para ser responsável por parte de sua filial de esports. A popularidade da organização cresceu e foi rebatizada antes de se fundir com a Falkol Esports para se tornar a Vorax, que é liderada por Leite e tem como uma de suas bandeiras o respeito à diversidade.

No início de seu trabalho com a ProGaming, Leite teve momentos em que estava mais envolvida e menos envolvida nos processos da organização, como quando seu segundo filho nasceu. Então, em certa altura de 2019, ela decidiu largar a carreira de advogada para dedicar-se integralmente à gestão da equipe.

“Lidamos com números, estatísticas, mas o mais importante é que lidamos com pessoas”, diz Leite. “Jamais nos arrependeremos de investir em uma pessoa. Pessoas que estão ao nosso lado, compartilhando os mesmos objetivos e ideias. Elas são nossos principais ativos, e eu não digo isso no sentido de ‘propriedade’, eu digo isso porque são o que realmente importa em nossa equipe.”

Barbara Gutierrez, jornalista de esports, é uma das figuras mais importantes do jornalismo de esports brasileiro, tendo trabalhado nos principais veículos de mídia especializada do país como Omelete, UOL, e foi editora-chefe do portal de notícias IGN e seu braço de esports Versus (atualmente MGG). Gutierrez cobriu alguns dos principais eventos de games e esports do mundo, como a E3, e trabalhou na TV aberta brasileira como apresentadora de um programa no canal Loading.

Gutierrez cresceu tendo videogames como parte de sua vida, principalmente devido ao pai, que era dono de um fliperama nos anos 90. Ela também frequentou LAN houses na adolescência, quando sua paixão pelo mundo competitivo começou graças a Dota. Sua vontade de jogar foi a combinação perfeita para sua vontade de escrever, então Gutierrez começou a contribuir com diferentes sites no Brasil. Posteriormente, ela fundou um blog especializado em Dota 2 e passou a ser convidada para eventos nos quais ampliou seus contatos, agilizando sua entrada no esports brasileiro.

“[Para trabalhar com games] não existe uma fórmula secreta, cada pessoa tem uma jornada completamente diferente”, afirma. “Eu costumava dizer às pessoas que trabalharam comigo para terminar os cursos da faculdade e insistia com elas que deveriam ir às aulas em vez de trabalhar mais horas. Isso é porque não terminei o meu curso, e não acho que alguém deva largar a faculdade para se dedicar ao trabalho com jogos. Cada pessoa tem seu espaço, maneira e principalmente seu ritmo de fazer as coisas, e não existe uma ‘fórmula de sucesso’. Cada pessoa tem que cuidar de si mesma.”

Gutierrez também compartilha sua experiência de ser mulher no ramo dos esports, dizendo que “a principal lição que tirei desse mercado é sobre nós que somos mulheres. Recebemos muito ódio da comunidade, e depois de sofrer muito, realmente sofrer muito, superar fotos indesejadas, mensagens de ódio, ameaças, comentários maldosos subestimando nosso conhecimento, finalmente entendi o que está acontecendo com essas pessoas: eles fazem isso porque se sentem mal e querem estar no nosso lugar. São pessoas que não aceitam que uma mulher possa ocupar um lugar de destaque no mercado de jogos e esports.”

Marianna “Mari” Motta Muniz, CEO da INTZ A2E, é um dos principais nomes dos esports universitários no Brasil. Ela é responsável pela A2E, a associação atlética da Universidade Federal Fluminense (UFF) que representa a INTZ, uma das principais organizações brasileiras, nos circuitos universitários. Muniz também trabalha como gerente de mídia social na B4 eSports e na LnK Gaming, uma empresa conjunta da produtora DC Set Group e da gigante das comunicações Globo.

Muniz tem 21 anos e começou sua trajetória no esports ao comparecer à final do Campeonato Brasileiro de League of Legends (CBLOL) em 2014, no Rio de Janeiro, aos 15 anos. Ela se apaixonou pelo cenário e, anos depois, quando entrou na UFF, ela descobriu o ambiente dos esports universitários, sendo eleita presidente da A2E e tornando-se em dezembro de 2019 a Estrategista de Marketing do Campeonato Brasileiro de Esportes Universitários.

“Quando você está começando não tem muito apoio, porque muitos ainda não conhecem o cenário,” disse ela. “Às vezes você tem que ser forte e encontrar apoio em si mesma. Muitas vezes me perguntaram se ‘ia para a faculdade para jogar videogame.’ Além disso, estude muito, porque os esportes eletrônicos estão ganhando profissionalismo dia após dia, então você tem que se manter atualizado. Não é como se você fosse um bom profissional apenas por amar os esportes eletrônicos.”

Thuane Paiva é gerente de talentos da Bad Boy Leeroy (BBL), uma empresa de promoção de esportes eletrônicos em São Paulo. Ela originalmente trabalhou no cinema brasileiro, TV e outras produções audiovisuais como agente de elenco, até que um de seus clientes, Matheus Ueta, deixou de focar em sua carreira artística para se tornar um jogador profissional de CS:GO.

Paiva passou então a participar de eventos de esports como gerente de carreira de Ueta até ele ser contratado pela equipe academy da Vivo Keyd. Nesse processo, ela rompeu seus preconceitos com o mundo dos games e dos esports, abraçando definitivamente uma carreira no cenário em 2020, quando a pandemia da COVID-19 impulsionou os esports brasileiros, ao aceitar um convite para trabalhar com talentos na BBL.

“Há um grande preconceito, que até eu carregava, de achar que não valia a pena dar atenção aos esportes eletrônicos. Mas não, há uma estrutura gigantesca por trás disso, envolvendo todas as organizações, empresas, etc. É surreal o tamanho do que se move. Eu não fazia ideia. Não é apenas uma lição para os esportes, mas para a vida: a ignorância gera preconceitos.”

Branca Galdino é um dos nomes mais lembrados do mundo dos esportes eletrônicos no Brasil, tendo trabalhado como assessora de imprensa de algumas das figuras mais conhecidas do país, como as estrelas do CS:GO Gabriel “Fallen” Toledo, Marcelo “Coldzera” David, e também organizações como a LOUD. Hoje ela é dona da N9NE, uma das principais agências de relações públicas de esportes do país, com clientes como a estrela do Free Fire Bruno “Nobru” Goes.

Galdino não começou sua carreira nos esports e nem mesmo em relações públicas. Ela era uma gerente de mídia consolidada que trabalhou para a Microsoft e para a agência de marketing Cheil quando começou a cobrir esportes eletrônicos nos fins de semana. A situação mudou quando ela conheceu e ajudou Fallen a lidar com a imprensa em um evento, e então emplacou trabalhos para ESL, MIBR, Vivo Keyd, Team oNe, e algumas das marcas mais proeminentes envolvidas em esports.

“Os esports estão crescendo graças ao profissionalismo que está sendo aplicado a eles”, diz Galdino, acrescentando que “conexão é tudo” neste negócio: “Dentro dos esports, se você não tem os contatos e os cultiva, você não vai simplesmente conseguir algo na primeira tentativa, porque as pessoas neste negócio criam conexões, trocam ideias, experiências e constroem bases para que relacionamentos se desenvolvam.”

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